Epidemiologia da dengue: uma análise espacial, temporal e social dos casos na região Norte do Brasil

Autores/as

DOI:

https://doi.org/10.55892/jrg.v9i20.3437

Palabras clave:

Arbovirose, Região Norte, Epidemiologia, Amazônia Legal, Aedes aegypti

Resumen

O presente estudo realizou uma análise epidemiológica abrangente dos casos confirmados de dengue na Região Norte do Brasil, cobrindo o decênio entre 2015 e 2025. Utilizando dados secundários obtidos a partir do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN/DATASUS), a investigação estruturou-se sob as dimensões espacial, temporal e sociodemográfica para compreender os fatores que modulam a dinâmica de transmissão viral no território amazônico. Ao longo do período avaliado, a região demonstrou uma carga epidemiológica expressiva, caracterizada por uma acentuada heterogeneidade entre as Unidades Federativas. O estado do Pará consolidou-se isoladamente como o principal epicentro absoluto de notificações, registrando mais de 90.000 casos, seguido em magnitude pelo Tocantins e pelo Acre. A análise temporal revelou que a distribuição das infecções foi flutuante e assíncrona, alternando intervalos de estabilidade com severos surtos epidêmicos, com destaque para os picos observados em 2022 em Rondônia e no Tocantins, e para a recente e expressiva quadruplicação de registros documentada no Pará e no Amapá no ano de 2024. Sob a óptica espacial, identificou-se que a dispersão municipal tendeu à centralização em capitais e grandes centros urbanos integrados (como Manaus e Macapá), coexistindo com a proeminência de polos econômicos e logísticos do interior, a exemplo de Parauapebas no Pará e do caso atípico de Cruzeiro do Sul, que superou numericamente a capital acreana devido à sua inserção na rede de conectividade da rodovia BR-364. A discussão desses achados indicou que as oscilações interanuais são fortemente influenciadas por anomalias climáticas globais, como o El Niño-Oscilação Sul (ENOS), cujas fases modulam o regime pluviométrico local, alterando a disponibilidade de criadouros e a velocidade de replicação do vetor. Além disso, a liderança do Pará e do Tocantins foi associada à presença de grandes centros de pesquisa e saúde, como o Instituto Evandro Chagas e complexos hospitalares universitários, que elevam a sensibilidade da vigilância e minimizam a subnotificação crônica. No âmbito sociodemográfico, observou-se uma prevalência unânime e sistemática do gênero feminino em todos os estados analisados, acumulando um total regional de 93.230 casos frente a 79.627 no gênero masculino. Essa assimetria foi justificada pelos hábitos eminentemente peridomésticos e diurnos do Aedes aegypti, ampliando a exposição de indivíduos associados ao manejo do espaço residencial. Ensaios biológicos da literatura corroboraram que o repasto em sangue humano atua como combustível reprodutivo para o vetor, maximizando sua fecundidade. Adicionalmente, o perfil etário e educacional revelou um acometimento prioritário de indivíduos em idade economicamente ativa, com pico na faixa de 20 a 39 anos (66.857 casos), e com nível de escolaridade correspondente ao Ensino Médio Completo, refletindo o impacto da mobilidade urbana sobre a probabilidade de infecção. Em contrapartida, os extremos etários apresentaram as menores frequências, sugerindo proteção por imunidade cumulativa em idosos e por anticorpos maternos em lactentes. Conclui-se que o enfrentamento da dengue na Amazônia Legal exige o reconhecimento de suas particularidades demográficas e ecológicas, demandando intervenções direcionadas que mitiguem os determinantes sociais da saúde e fortaleçam as redes de vigilância ativa locais.

Descargas

Los datos de descargas todavía no están disponibles.

Biografía del autor/a

Sthefany Sarah Das Neves Lima, Afya Faculdade de Ciência Médicas, Bragança, Pará, Brasil

Sofia Menezes Franco, Afya Faculdade de Ciência Médicas, Bragança, Pará, Brasil

Camilly de Oliveira Monte, Afya Faculdade de Ciência Médicas, Bragança, Pará, Brasil

Aurycéia Jaquelyne Guimarães-Costa, Afya Faculdade de Ciência Médicas, Bragança, Pará, Brasil

Citas

Andrioli, Denise Catarina, Maria Assunta Busato, and Junir Antonio Lutinski. "Características da epidemia de dengue em Pinhalzinho, Santa Catarina, 2015-2016." Epidemiologia e Serviços de Saúde 29 (2020): e2020057.

Bertakis, Klea D., et al. "Gender differences in the utilization of health care services." Journal of family practice 49.2 (2000).

Bursali, Fatma, and Fatih Mehmet Simsek. "Effects of different feeding methods and hosts on the fecundity and blood-feeding behavior of Aedes aegypti and Aedes albopictus (Diptera: Culicidae)." Biologia 79.8 (2024): 2423-2431.

Cavalcanti, Daniele Blanco, Jorge LEMOS, and Álvaro CHRISPINO. "Abordagem sociocultural de saúde e ambiente para debater os problemas da dengue: um enfoque CTSA no Ensino de Biologia." Ensino, Saude e Ambiente 5.3 (2012).

Colombo, Tatiana Elias, et al. "Dengue-4 false negative results by Panbio® Dengue Early ELISA assay in Brazil." Journal of Clinical Virology 58.4 (2013): 710-712.

Costa-Júnior, Florêncio Mariano da, Márcia Thereza Couto, and Ana Cláudia Bortolozzi Maia. "Gênero e cuidados em saúde: Concepções de profissionais que atuam no contexto ambulatorial e hospitalar." Sexualidad, Salud y Sociedad (Rio de Janeiro) (2016): 97-117.

Fernandes, Wania Ribeiro, et al. "Estratégias para prevenção da dengue, zika e chikungunya desenvolvidas na região norte do brasil: o programa saúde na escola em foco." (2020).

Freitas Maciel, Francisco Wandisley Freitas, et al. "PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DAS ARBOVIROSES (DENGUE, CHIKUNGUNYA E ZIKA) EM MULHERES NO ESTADO DO MARANHÃO." Revista Movimenta 18.3 (2025).

Lucena, Lorena Tourinho, et al. "Dengue na Amazônia: aspectos epidemiológicos no Estado de Rondônia, Brasil, de 1999 a 2010." Revista Pan-Amazônica de Saúde 2.3 (2011): 7-7.

Halstead, S. B “Pathogenesis of dengue: challenges to molecular biology,” Science, vol. 239, no. 4839, pp. 476–481, 1988.

Moraes, Bergson Cavalcanti, et al. "Sazonalidade nas notificações de dengue das capitais da Amazônia e os impactos do El Niño/La Niña." Cadernos de Saúde Pública 35 (2019): e00123417.

Neves, Karen Nickole Sousa, et al. "Temporal trend and spatial distribution of Chagas disease in the Northern Region of Brazil: an alert for the state of Pará." Revista JRG de Estudos Acadêmicos 8.19 (2025): e082666-e082666.

Santos, Marcelo Adriano Mendes, et al. "Dengue virus serotype 2 genotype III evolution during the 2019 outbreak in Mato Grosso, Midwestern Brazil." Infection, Genetics and Evolution 113 (2023): 105487.

Schneider, JMPH. et al. A timeline for dengue in theAmericas to December 31, 2000 and noted firstoccurrences. Division of Disease Prevention and Control, 2001.

Souza, Ueric José Borges et al. "Circulation of dengue virus serotype 1 genotype V and dengue virus serotype 2 genotype III in Tocantins state, Northern Brazil, 2021–2022." Viruses 15.11 (2023): 2136.

Souza EB, Kayano MT, Ambrizzi T. Intraseasonal and submonthly variability in eastern Amazon and Northeast Brazil during autumn rainy season. Theor Appl Climatol 2005; 81:177-91.

Tang, Kin Fai, & Eng Eong Ooi. "Diagnosis of dengue: an update." Expert review of anti-infective therapy 10.8 (2012): 895-907.

Thompson, Ashley E., et al. "The influence of gender and other patient characteristics on health care-seeking behaviour: a QUALICOPC study." BMC family practice 17.1 (2016): 38.

Ujvari, S. C. A história e suas epidemias: a convivência do homem com os microorganismos. 2ª edição. Rio de Janeiro: Editora Senac Rio e Editora Senac São Paulo, 2003. 328p.

Publicado

2026-05-28

Cómo citar

LIMA, S. S. D. N.; FRANCO, S. M.; MONTE, C. de O.; GUIMARÃES-COSTA, A. J. . Epidemiologia da dengue: uma análise espacial, temporal e social dos casos na região Norte do Brasil. JRG Journal of Academic Studies , Brasil, São Paulo, v. 9, n. 20, p. e093437, 2026. DOI: 10.55892/jrg.v9i20.3437. Disponível em: https://mail.revistajrg.com/index.php/jrg/article/view/3437. Acesso em: 29 may. 2026.

ARK